ESTE PAÍS NÃO É PARA VELHOS [ou para corruptos…]



Metro do Porto S. Bento /// 14.05.2010

Em Portugal, há que ser especialmente talentoso para  corromper.

Não é corrupto quem quer
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Portugal é um país em salmoura. Ora aqui está um lindo decassílabo que só por distracção dos nossos  poetas não integra um soneto que cante o nosso país como ele  merece. "Vós sois o sal da terra", disse Jesus dos pregadores.  Na altura de Cristo não era ainda conhecido o efeito do sal na  hipertensão, e portanto foi com o sal que o Messias comparou  os pregadores quando quis dizer que eles impediam a corrupção.  Se há 2 mil anos os médicos soubessem o que sabem hoje, talvez  Jesus tivesse dito que os pregadores eram a arca frigorífica  da terra, ou a pasteurização da terra. 
 
Mas, por muito que hoje  lamentemos que a palavra "pasteurização" não conste do Novo  Testamento, a referência ao sal como obstáculo à corrupção é,  para os portugueses do ano 2010, muito mais feliz. E isto  porque, como já deixei dito atrás com alguma elevação  estilística, Portugal é um país em salmoura: aqui não entra a  corrupção - e a verdade é que andamos todos  hipertensos.
Que Portugal é um país livre de corrupção sabe  toda a gente que tenha lido a notícia da absolvição  de Domingos Névoa. O tribunal deu como  provado que o arguido tinha oferecido 200 mil euros para que  um titular de cargo político lhe fizesse um favor, mas  absolveu-o por considerar que o político não tinha os poderes  necessários para responder ao pedido. Ou seja, foi  oferecido um suborno, mas a um destinatário inadequado. E,  para o tribunal, quem tenta corromper a pessoa errada  não é corrupto- é só parvo. 
 
A sentença, infelizmente, não  esclarece se o raciocínio é válido para outros crimes: se, por  exemplo, quem tenta assassinar a pessoa errada não é  assassino, mas apenas incompetente; ou se quem tenta assaltar  o banco errado não é ladrão, mas sim distraído. Neste último caso a prática de irregularidades é extraordinariamente difícil, uma vez que mesmo quem assalta o banco certo só é  ladrão se não for administrador.
O hipotético suborno de  Domingos Névoa estava ferido de irregularidade, e por isso não  podia aspirar a receber o nobre título de suborno. O que se passou foi, no fundo, uma ilegalidade ilegal. O que,  surpreendentemente, é legal. Significa isto que, em Portugal,  há que ser especialmente talentoso para corromper. Não é  corrupto quem quer. É preciso saber fazer as coisas bem feitas  e seguir a tramitação apropriada. Não é acto que se pratique à  balda, caso contrário o tribunal rejeita as pretensões do  candidato. 
 
"Tenha paciência", dizem os juízes. "Tente outra  vez. Isto não é corrupção que se  apresente." […]


Ricardo Araújo Pereira

in Visão_Boca do Inferno_27.05.2010